Casa de Borgonha (1139-1383)


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O Brasil dos outros 500

 Mudanças na História


A Dinastia de Borgonha

1. D. Afonso I Henriques, o Conquistador (1139-1185)

Em 1086, o conde Henrique de Borgonha veio com seu primo Raimundo de Borgonha alistar-se no serviço de Afonso VI, rei de Leão e Castela. Casou com Teresa, filha bastarda deste rei. Em 1093, o exército cristão fez uma incursão até o Tejo. Depois deste feito militar, D. Henrique foi nomeado governador do condado de Portucale, sob a suserania de Raimundo, conde da Galiza. Em 1097 já governava independentemente o seu condado. Em 1103-1105 foi numa cruzada à Terra Santa. Ao voltar ao condado, continuou a guerra contra os mouros até sua morte em Astorga, em 1114.

D. Afonso Henriques nasceu em Guimarães em 1111, filho do conde Henrique de Borgonha e de D. Teresa, filha do rei de Leão Afonso VI, que dera a seu genro o condado de Portugal. Quando o conde D. Henrique faleceu, D. Teresa, ainda formosa mulher, ligou-se a Fernão Peres de Trava, fidalgo galego, detestado pela nobreza e pelo povo. D. Afonso pôs-se à frente de uma revolta contra a rainha e o protegido, desbaratou em São Mamede os partidários destes e ficou senhor do condado. Três vezes sucessivas invadiu a Galiza, derrotando os leoneses na batalha de Cerneja (1137). Ameaçado pelos mouros, que tinham invadido o território do condado, correu a atacá-los e destroçou-os na batalha de Ourique (1139). Pouco depois, rebelou-se contra seu suserano e tomou o título de rei. Seguiram-se novas lutas com os leoneses, às quais sucederam tréguas e que terminaram definitivamente pelo tratado de Samora (1143), em que Afonso VII reconheceu a independência do reino de Portugal e o título de rei tomado três anos antes por Afonso Henriques.

Daí em diante, a vida de D. Afonso Henriques é uma luta contínua com os mouros, a quem Ibn Errik, como eles lhe chamavam, atacava geralmente de surpresa e de assalto. Em 1147, arrebata-lhes Santarém. Meses depois, auxiliado por uma armada de cruzados, toma-lhes Lisboa; e depois, sucessivamente, Alcácer do Sal, Évora, Beja, Serpa e muitas outras povoações e castelos caem em poder do rei de Portugal. Em toda parte Afonso Henriques peleja como um simples cavaleiro, sempre na vanguarda, expondo-se a todos os perigos e sendo ferido mais de uma vez. Antes de terminar sua longa e gloriosa carreira, cometeu o erro de quebrar pazes com Fernando II, rei de Leão, tentando arrebatar-lhe Badajoz, a que pôs cerco. Foi, porém, surpreendido pelo monarca leonês, em cujas mãos caiu prisioneiro. Este concedeu-lhe generosamente a liberdade, exigindo, porém, a restituição dos territórios de que se apoderara. D. Afonso Henriques faleceu em 1185, tendo reinado 57 anos. É para notar o desenvolvimento que tomou a arquitetura militar e religiosa durante o seu reinado; surgiram no país catedrais, mosteiros e castelos.

2. D. Sancho I, o Povoador (1185-1211)

Filho de D. Afonso Henriques e da rainha D. Mafalda, sua esposa; nascido em Coimbra,em 1154. Reinou de 1185 a 1211. Em 1178, ainda infante, penetrou em Andaluzia, então mourisca, chegando até aos muros de Sevilha. Em 1189, já rei, arrebatou Silves aos mouros, mas estes retomaram-na em 1197. D. Sancho teve ainda prolongada e estéril luta com o rei de Leão. Dedicou-se depois ao desenvolvimento da povoação do reino, o que lhe valeu o seu cognome histórico: levantou castelos, erigiu municípios, fundou aldeias e vilas e atraiu a Portugal numerosos colonos estrangeiros, fazendo-lhes mercê de terras. Os últimos anos de sua vida foram amargurados por graves contendas com o clero, dos quais este acabou por sair vencedor.

3. D. Afonso II, o Gordo (1211-1223)

Filho de D. Sancho I e de D. Dulce, filha do conde de Barcelona, nasceu em Coimbra em 1185 e reinou de 1211 a 1223. Encetou seu reinado reunindo em Coimbra uma cúria (cortes), que promulgou várias leis, ampliando os privilégios de que já gozava o clero. D. Afonso II, por não querer cumprir o testamento de seu pai na parte em que D. Sancho I legava às filhas o senhorio de importantes terras, teve com suas irmãs discórdias e guerras. O papa Inocêncio III, a cuja decisão foi submetido finalmente o litígio, atribuiu ao soberano a propriedade das terras e às infantas os rendimentos. Em 1212, Afonso II acudiu em socorro do rei de Castela, ameaçado por uma grande invasão muçulmana. Os dois monarcas aliados derrotaram os mouros na batalha de Navas de Tolosa, onde a infantaria portuguesa se distinguiu particularmente. Foi o começo do fim definitivo do poderio mouro na Península Ibérica. A reconquista de Alcácer do Sal, que os mouros haviam arrebatado a D. Sancho I, é outro dos seus feitos.

Afonso II não tinha índole guerreira e evitava os campos de batalha, mas era político enérgico, muito cioso da autoridade real, que sempre procurou fortalecer. Afrontou sem temor as iras dos nobres, cujos abusos nunca hesitou em reprimir e teve também graves discórdias com o clero, ficando memorável a sua luta com o poderoso arcebispo de Braga, que teve de fugir de Portugal. Nem a ameaça da excomunhão papal fez trepidar o monarca. Dos ódios que a sua política semeou, veio a ser vítima o seu sucessor, D. Sancho II.

4. D. Sancho II, o Capelo (1223-1248)

Primeiro filho de D. Afonso II e da rainha D. Urraca, nasceu em Coimbra em 1202 e morreu em 1248. Reinou, na prática, de 1223 a 1227. O cognome de o Capelo proveio-lhe de se ter filiado na Ordem de São Francisco. Era valente guerreiro e, nas suas expedições contra os mouros, expulsou-os do Alentejo e invadiu em seguida o Algarve. Governou mal, porém, permitindo que os fidalgos praticassem violências e abusos condenáveis. Entrou em conflito com o clero, que dirigiu ao papa contra o soberano acusações de imoralidade e de incapacidade. O papa retirou o governo de Portugal a D. Sancho II, confiando-o, por este não ter descendentes diretos, a seu irmão D. Afonso, que vivia na França. A rainha D. Mécia Lopes de Haro foi por essa ocasião raptada. Abandonado por todos, sem mulher e sem trono, D. Sancho II acabou pouco depois os seus dias em Toledo, Castela, para onde se retirara.

5. D. Afonso III, o Bolonhês (1248-1279)

Segundo filho de D. Afonso II e de D. Urraca de Castela, irmão de D. Sancho II, nasceu em Coimbra, em 1210. Passou a governar Portugal como regente a partir de 1228, quando o papa destituiu seu irmão. Após a morte deste, em 1248, subiu ao trono e reinou até 1279.

Tendo partido para a França em 1227, aí casou com D. Matilde, condessa de Bolonha, viúva de Filipe, o Crespo. Por isso, o povo lhe chamou depois o Bolonhês. Acompanhou Luís IX da França na guerra contra Henrique III da Inglaterra, tomando parte com distinção na batalha de Saintes. Quando o conflito entre D. Sancho II e o clero chegou ao ponto de este solicitar do papa Inocêncio IV a deposição do monarca, o infante D. Afonso entrou com os prelados em negociações, de que resultou ser D. Sancho II excomungado e deposto pelo papa (1247) e confiado o governo do país ao infante D. Afonso.

Depois da morte de D. Sancho, foi D. Afonso aclamado rei de Portugal. Pouco depois de subir ao trono, o que restava por conquistar do Algarve caiu em poder dos portugueses e os mouros foram definitivamente expulsos de Portugal. Surgiram, porém, dificuldades com Castela, que reclamava o Algarve a pretexto de que esta província lhe fora doada pelo último vali, que a regera. Seguiu-se um período de lutas, que terminou em 1267 pelo reconhecimento por Castela a Portugal da posse do Algarve. Além destas dificuldade, teve D. Afonso III graves discórdias com o clero, que alcançou do papa Urbano IV a interdição do monarca. Este acabou por se submeter às imposições dos prelados e a interdição foi levantada.

D. Afonso III faleceu em 1279. Durante seu reinado deu provas de inteligência e de tino, protegendo a agricultura e desenvolvendo a povoação do país. Um dos fatos notáveis do peróido foi a convocação, em 1254, de cortes em Leiria, nas quais pela primeira vez teve voto o Terceiro Estado (a burguesia), representado pelos procuradores dos municípios.

6. D. Dinis, o Lavrador (1279-1325)

Filho de D. Afonso III e de D. Beatriz de Castela, nasceu em Lisboa. Recebeu educação literária, dedicou-se a reformas e melhoramentos; fundou a Universidade de Lisboa (1290) que transferiu para Coimbra (1307). Casou em 1282 com D. Isabel de Aragão, depois Santa Isabel, a Rainha Santa. Protegeu o ramo português da Ordem dos Templários, extinta pelo papa sob a acusação de heresias (mas na realidade para atender às pressões do rei da França, que desejava tomar posse de suas riquezas), permitindo-lhes manter sua organização com o nome de Ordem de Cristo.

Também durante seu reinado, um pequeno grupo de hereges cátaros do sul da França e do norte da Itália, caçados pelo inquisidor Bernard Gui, refugiou-se em Portugal. Liderados por Pierre Authié, Bernard Audouy e o monge franciscano renegado Bernardo Delicioso, compreendem que embora a dinastia portuguesa mostre-se disposta a fechar os olhos à sua presença e o prestígio da Rainha Santa contenha por ora a intromissão da Inquisição no país, sua sobrevivência a longo prazo exige que sua religião seja praticada na clandestinidade, na qual permanecerão por mais de um século.

D. Dinis amava as letras; deixou poesias suas no chamado Cancioneiro de D. Dinis. No fim de seu reinado, teve por duas vezes o desgosto de ver seu filho, o infante D. Afonso, revoltar-se contra sua autoridade, excitado pelo ciúme, de que era causa a afeição que D. Dinis testemunhava a um outro filho seu, mas não legítimo, chamado Afonso Sanches. Tanto de uma vez como da outra, consegui D. Isabel evitar um choque sangrento entre as tropas do rei e as do infante. D. Dinis perdoou, no leito de morte, ao filho rebelde.

7. D. Afonso IV, o Bravo (1325-1357)

Filho de D. Dinis e de D. Isabel de Aragão,a Rainha Santa, nasceu em Lisboa, em 1290. Reinou de 1325 a 1357. O ciúme dos favores que D. Dinis dispensava a seu filho ilegítimo Afonso Sanches levou D. Afonso, quando ainda infante, a pegar em armas, por duas vezes, contra seu pai e soberano. As tropas que o seguiam devastaram atrozmente algumas regiões do país. A intervenção de D. Isabel evitou que as hostes do rei e as do infante se enfrentassem abertamente e D. Dinis perdoou, no leito de morte, ao filho rebelde.

No princípio do seu reinado, o soberano se ocupava mais de caçadas e montarias do que dos negócios públicos. Uma vez, estando o conselho reunido em Sintra,como D. Afonso IV se pusesse a contar prolixamente os episódios de uma caçada, de que pouco antes regressara, um dos conselheiros presentes teve a hombridade de o interromper, exprobrando-lhe o seu gosto imoderado por distrações a que sacrificava os deveres de rei, chegando a dizer-lhe que continuaria reinando em Portugal no caso de os cumprir, senão... - Senão o quê? atalhou o soberano, com violência; ao que o conselheiro respondeu, muito desassombradamente: Senão, não!

D. Afonso casara, ainda antes de subir ao trono, com D. Brites de Castela, de quem teve sete filhos, entre os quais a infante D. Maria, que desposou Afonso XI, rei de Castela. Por causa dos agravos que recebeu de seu marido a princesa portuguesa, moveu D. Afonso IV a seu genro uma guerra, que durou quatro anos sem resultado decisivo. A ameaça de uma terrível invasão sarracena na Península Ibérica acabou levando os dois monarcas cristãos a aliarem-se contra o inimigo comum. Encontraram-se os dois exércitos, português e castelhano, com os invasores junto às margens do Salado. A derrota dos mouros foi completa.

O reinado de D. Afonso IV, mercê das qualidades de administrador e legislador de que deu provas, teria deixado bom nome na história senão o houvesse manchado, nos últimos anos, o bárbaro assassínio de D. Inês de Castro. D. Afonso IV tinha gênio violento e irascível, ao qual, tanto como à sua intrepidez, deveu o cognome histórico de o Bravo.

8. D. Pedro I, o Justiceiro (1357-1367)

Filho de D. Afonso IV, nasceu em Coimbra, em 1320. Reinou de 1357 a 1367. Casou em 1340 com D. Constança, infanta castelhana e enamorou-se da bela e nobre castelhana D. Inês de Castro, dama de companhia da rainha. Depois da morte de D. Constança, a ligação entre D. Pedro e D. Inês estreitou-se mais ainda. Quatro filhos nasceram dessa união que em 1354 foi confirmada por um casamento clandestino. Invejosos do favor com que o herdeiro da coroa acolhia os irmãos de D. Inês e outros fidalgos castelhanos, os protegidos de D. Afonso IV persuadiram este monarca de que a morte de D. Inês era necessária para que a influência de Castela não viesse a tornar-se preponderante no reino.

A sentença foi executada pelos fidalgos Pero Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco em 7 de janeiro de 1355. As súplicas da infeliz que, rodeada dos filhos, se lançou aos pés do soberano, implorando misericórdia, só momentaneamente apiedaram Afonso IV, que a abandonou ao cutelo infamante.

O crime odioso alucinou o infante e levou-o a pegar em armas contra seu pai e os assassinos tiveram de se refugiar em Castela. Submeteu-se, porém, pouco depois, a rogos de sua mãe a rainha D. Beatriz. Logo que subiu ao trono, porém, tirou cruel vingança dos assassinos de Inês. Após a morte de Afonso IV, o rei de Castela os entregou a D. Pedro I em roca de três fidalgos castelhanos que tinham se asilado em Portugal, exceto Diogo Lopes, que conseguiu escapar. D. Pedro I mandou arrancar o coração pelo peito a Pero Coelho e pelas costas a Álvaro Gonçalves (1357) depois de lhes ter obrigado a beijar a mão do cadáver de D. Inês (vestida e entronizada como rainha) e lhes ter feito torturar.

Depois disso, seu reinado foi pacífico e econômico. D. Pedro I ficou célebre na história pelo rigor com que punia os criminosos. Era excessivo em tudo, na cólera, como na alegria. Açoitava pelas suas próprias mãos aqueles que incorriam na sua ira e, no seu cego amor pela justiça, não raro foi cruel e sanguinário. A par disso, era folgazão até ao ponto de andar bailando pelas ruas com o povo. Este lamentou muito a sua morte, dizendo: "dez anos assim, nunca houve em Portugal". O país, com efeito, prosperara durante esse período de excelente e poupada administração.

9. D. Fernando I, o Formoso (1367-1383)

Frouxo, inconstante, sem palavra, embora inteligente, começou o seu reinado (1367), dilapidando a fazenda pública numa guerra desastrosa com Castela, cujo cetro ambicionava reunir ao de Portugal. Deixando-se em seguida possuir de uma paixão insensata por uma mulher cruel e pérfida, D. Leonor Teles, desposou-a clandestinamente, faltando ao compromisso que tomara, de casar com a filha do rei de Castela. O povo, que não queria D. Leonor como rainha, amotinou-se, mas o movimento foi sufocado e os seu chefes punidos de morte.

Sobreveio nova guerra com Castela, cujas tropas invadiram Portugal e puseram cerco a Lisboa, que foi parcialmente incendiada. A intervenção de um legado do papa decidiu o rei de Castela a levantar o cerco e a assinar com D. Fernando pazes humilhantes para Portugal (1373). Seguiu-se um período de tranqüilidade e de boa administração; mas, incitado por D. Leonor, de novo o monarca se envolveu em terceira guerra com os castelhanos, que acarretou para Portugal ainda maiores desastres que as anteriores. Depois de destruir em Saltes a esquadra portuguesa, uma armada castelhana atacou Lisboa, cujos arredores foram outra vez devastados. Assinou-se enfim a paz, dando o soberano português sua única filha D. Beatriz ao rei D. João I de Castela, fazendo este monarca adquirir direitos à coroa de Portugal.

 

Continua